O sistema é bruto (pois há quem ganhe com isso)
Eu estranho este Uziel que
aparece na televisão duas vezes por dia, agredindo o telespectador com tapas na
câmera. Não consigo reconhecer no apresentador dos trocadilhos infames o cara
tímido e estranho com quem estudei na Faculdade de Comunicação da UFBa. Ok, eu
era ainda mais estranho, reconheço, mas ainda não saí por aí gritando o quanto
o sistema é bruto – frase que, na prática, significa um atentado aos direitos
civis, um estímulo à violência do Estado da Bahia, através das suas polícias.
Por falar nisso, lamentei
bastante a cobertura do Brasil Urgente em relação ao Dois de Julho. Os
candidatos a prefeito, um a um, foram convocados a repetir o slogan do
Programa, com aquele entusiasmo típico de quem pretende angariar votos. O mais
assustador da coisa toda é que o ex-secretário de segurança pública César Nunes
fez coro em relação ao bordão, em pelo menos uma entrevista, veiculada quando
ele ainda exercia o cargo.
Na carta divulgada como protesto
em relação à famigerada matéria “Chororô na delegacia....”, o grupo de
jornalistas que protestou quanto a atuação da repórter Mirela Cunha reclama a
responsabilidade do Governo do Estado, tendo em vista que, além de patrocinar o
programa, via propaganda paga com o dinheiro dos contribuintes, estimula a
apresentação na TV dos presos em custódia.
Grande parte dos comentários nas
redes socais e blogs tendia a apoiar a atitude da repórter, pois o destino que
bandido teria que ter é aquele mesmo – a humilhação e, no caso dos
estupradores, o risco de passar por violência sexual nas prisões. A culpa da
coisa toda não é apenas da emissora, do Governo do Estado, dos “profissionais”
que levam estas aberrações ao ar, mas de uma sociedade que clama e demanda a
violência como forma de disciplinar os supostos criminosos.
Mas como é possível compreender
que a mesma sociedade que se indignou de maneira tão enfática contra a tortura
a presos políticos aceite (e demande) a atitude violenta dos programas sensacionalistas
ou legitime a tortura policial, presente em filmes como Tropa de Elite? – bem,
primeiro a decadência do Estado, que falhou miseravelmente na sua função de
prover a segurança da população, em seguida há a demanda do público por cenas
de morte e violência (quanto mais sangue melhor) e, em terceiro, porém não
menos importante, a questão racial.
O garoto mostrado na reportagem
de Mirela Cunha (não esqueçamos este nome) é negro, assim como a maioria dos
supostos criminosos mostrados pelos sensacionalistas. Há uma sociedade que
tende a se proteger em relação aos homens negros, vistos como potenciais
perpetradores de violências. Há uma sociedade que se protege em relação a eles,
que sabota as suas possibilidades de saída do quadro miserável em que se encontram,
pois, assim, podem assegurar seus privilégios.
Porém, a classe média branca não
assiste a estes programas, com raríssimas exceções. Quem liga a TV para ver
esta coisa toda é a população pobre, em sua maioria formada por pessoas negras.
Esta audiência representa a mais cruel realização da dominação simbólica:
quando aqueles que são dominados terminam por impor a si próprios e aos seus
semelhantes a mesma percepção das classes dominantes, que, sobre eles, exerce o
poder.
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