segunda-feira, 27 de agosto de 2012


O sistema é bruto (pois há quem ganhe com isso)


Eu estranho este Uziel que aparece na televisão duas vezes por dia, agredindo o telespectador com tapas na câmera. Não consigo reconhecer no apresentador dos trocadilhos infames o cara tímido e estranho com quem estudei na Faculdade de Comunicação da UFBa. Ok, eu era ainda mais estranho, reconheço, mas ainda não saí por aí gritando o quanto o sistema é bruto – frase que, na prática, significa um atentado aos direitos civis, um estímulo à violência do Estado da Bahia, através das suas polícias.

Por falar nisso, lamentei bastante a cobertura do Brasil Urgente em relação ao Dois de Julho. Os candidatos a prefeito, um a um, foram convocados a repetir o slogan do Programa, com aquele entusiasmo típico de quem pretende angariar votos. O mais assustador da coisa toda é que o ex-secretário de segurança pública César Nunes fez coro em relação ao bordão, em pelo menos uma entrevista, veiculada quando ele ainda exercia o cargo.

Na carta divulgada como protesto em relação à famigerada matéria “Chororô na delegacia....”, o grupo de jornalistas que protestou quanto a atuação da repórter Mirela Cunha reclama a responsabilidade do Governo do Estado, tendo em vista que, além de patrocinar o programa, via propaganda paga com o dinheiro dos contribuintes, estimula a apresentação na TV dos presos em custódia.

Grande parte dos comentários nas redes socais e blogs tendia a apoiar a atitude da repórter, pois o destino que bandido teria que ter é aquele mesmo – a humilhação e, no caso dos estupradores, o risco de passar por violência sexual nas prisões. A culpa da coisa toda não é apenas da emissora, do Governo do Estado, dos “profissionais” que levam estas aberrações ao ar, mas de uma sociedade que clama e demanda a violência como forma de disciplinar os supostos criminosos.

Mas como é possível compreender que a mesma sociedade que se indignou de maneira tão enfática contra a tortura a presos políticos aceite (e demande) a atitude violenta dos programas sensacionalistas ou legitime a tortura policial, presente em filmes como Tropa de Elite? – bem, primeiro a decadência do Estado, que falhou miseravelmente na sua função de prover a segurança da população, em seguida há a demanda do público por cenas de morte e violência (quanto mais sangue melhor) e, em terceiro, porém não menos importante, a questão racial.

O garoto mostrado na reportagem de Mirela Cunha (não esqueçamos este nome) é negro, assim como a maioria dos supostos criminosos mostrados pelos sensacionalistas. Há uma sociedade que tende a se proteger em relação aos homens negros, vistos como potenciais perpetradores de violências. Há uma sociedade que se protege em relação a eles, que sabota as suas possibilidades de saída do quadro miserável em que se encontram, pois, assim, podem assegurar seus privilégios.

Porém, a classe média branca não assiste a estes programas, com raríssimas exceções. Quem liga a TV para ver esta coisa toda é a população pobre, em sua maioria formada por pessoas negras. Esta audiência representa a mais cruel realização da dominação simbólica: quando aqueles que são dominados terminam por impor a si próprios e aos seus semelhantes a mesma percepção das classes dominantes, que, sobre eles, exerce o poder. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Danilo Gentilli e a moral do psicopata


Danilo Gentilli e a moral do psicopata



A psicopatia não é uma doença, mas um diagnóstico psiquiátrico-forense, caracterizado por um sujeito que não consegue empatizar – se colocar no lugar do outro, o que enseja uma extrema insensibilidade em relação às pessoas, pois estas se tornam meros instrumentos para o psicopata. Estes “seres bípedes”, como os classifica Ana Beatriz Barbosa Silva, autora de Mentes Perigosas – o Psicopata Mora ao Lado têm um peculiar jeito de olhar a vida. Vivem como se os outros à sua volta fossem peças num jogo de xadrez, algo descartável, meios para um determinado fim. Não sabem a diferença entre os “seres humanos” e as “coisas”.

A Polícia Federal Americana (FBI) investiga anualmente ao menos 50 possíveis seriais killers. Porém, há algo contra o que nem mesmo as polícias podem nos defender. Trata-se da “cultura da psicopatia”, para recorrer, mais uma vez, a Ana Beatriz. Esta insensibilidade ao outro se manifesta em vários aspectos, desde as novelas, que apagam os negros das suas narrativas (ainda que o País seja formado por 51% de afrodescendentes), até a sua face mais cruel, o humor sem graça destinado a ofender alvos determinados: negros, judeus, homossexuais e mulheres.

Em entrevista ao publicitário e dublê de apresentador Roberto Justus, Danilo Gentilli diz: “Toda comédia tem um alvo. Eu sou um atirador e estou em busca de um alvo”. A frase, longe de ser engraçada, lembra o discurso coerente e racional de alguns de um dos tipos mais assustadores de assassinos em série, os LDSK, na sigla em inglês, algo como: “Serial Killer de Longa Distância”, aqueles que matam pessoas a centenas de metros de distância, as vendo a partir de uma lente de mira – não há aproximação física ou qualquer chance de contato com a vítima. Há apenas o prazer de matar a partir de uma distância segura para o atirador. Esta distância é sintomática, pois invalida qualquer possibilidade de identificação. A vítima é a alteridade extrema.

Não pretendo dizer que o Gentilli seja um psicopata, mas que o humor brasileiro, em seu momento atual, sucumbe à mesquinharia, à estupidez e assume comportamentos com traços psicopáticos. É um humor que tem a dificuldade de empatizar, de pedir desculpas e acha engraçado estimular, ainda que indiretamente, a violência contra grupos sociais discriminados. Na entrevista, Gentilli arrota alguma cultura. Afirma ter lido Freud e Bergson. Mas há outras opções que ele poderia tomar, talvez Stuart Hall e Judith Butler.

Estes pesquisadores concordam que uma série de textos da cultura elege enquanto aquele capaz de exercer o direito à humanidade um tipo de sujeito que teve a sua posição, o seu lugar, blindado ao longo da história ocidental. Eis as suas características: homem, branco, heterossexual, cristão e de classe média. Precisamente com os seres humanos dotados destas características parece não existir piada possível. A piada funciona apenas com aqueles que são “outros” – com os quais não é possível nenhuma solidariedade ou identificação – negros, mulheres, homossexuais, judeus, asiáticos – apenas para ficar em alguns exemplos.

Gentilli fez uma piada sobre o cancelamento de uma estação do metrô em São Paulo num bairro que teria alta concentração de judeus de várias nacionalidades, episódio pelo qual se retratou. Porém, antes disso, ele fez outra piada: “king Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loura. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”. Por esta nunca pediu desculpas.

Mas fica a frase do psicólogo Jacob Goldberg, ouvido durante o programa: “A minha liberdade termina onde começa a dignidade do outro”. Nada como uma ação por danos morais para lembrar isso ao humor sem graça. Aliás, nada como o humor de verdade, feito por um inglesinho pequeno, feio e traquina, Chaplin, que, em seus filmes, nunca agrediu pretos, judeus e mulheres (não nos os que eu vi) e no filme O Grande Ditador (1940) discursou por quase cinco minutos contra o racismo e a intolerância. E quanto ao melhor comediante de stand-up de todos os tempos, George Carlin – assisto alguns dos seus shows na Internet – ainda não vi sequer uma piada racista ou sexista. Enfim, apenas me ressinto por ter citado Chaplin e Carlin  no mesmo texto no qual cito Danilo Gentilli. Vai vendo...