Foi em 1992 o ano em que o então presidente Fernado Coller
pediu aos brasileiros que saíssem às ruas vestindo verde e amarelo ou pendurassem
um pano com as cores da bandeira nas janelas de casas e escritórios. O efeito
foi diferente do que ele imaginava. As pessoas saíram às ruas vestindo preto,
exigindo a cabeça do presidente – num sentido figurado, obviamente.
Mais de vinte anos depois, uma constrangida presidenta seria
vaiada durante a abertura da Copa das Confederações. Não enfrentou o protesto,
não falou que foi uma das pessoas torturadas e que teve os seus direitos civis
caçados para que aquela multidão pudesse ter o direito de se manifestar. O
ex-presidente Lula foi, durante os seus oito anos de governo, ridicularizado em
programas de humor, tratado com desprezo por publicações como a Revista Veja e
foi, ainda, devidamente vaiado em mais de uma ocasião.
É óbvia a tendência de rejeição à autoridade que não seria
algo apenas do brasileiro, mas uma tendência pós segunda guerra, de se
desconfiar dos governos, religiões ou quaisquer tipo de autoridade. A grande
novidade dos movimentos que ora saem às ruas é que, nestes, não se é possível
identificar qualquer liderança que seja. O Movimento Passe Livre tem líderes,
os partidos têm líderes, mas não a multidão que sai às ruas.
Acender o estopim, convocar uma manifestação via redes
sociais não faz de ninguém líder de nada. A evidência maior em relação a isto
são os saques e os atos de vandalismo em relação aos quais ninguém tem
controle. Talvez este tenha sido a grande falha da cobertura dos protestos que
sacudiram o país esta semana. A mídia insistia em procurar líderes, fontes que
pudessem falar sobre o assunto e lhes facilitar o trabalho, mas a novidade é
que não há liderança. Há redes de solidariedade que se unem no sentido de
protestar em prol de uma causa precisa: a qualidade dos serviços públicos e a
seriedade na gestão da máquina pública.
Não é de se espantar que os partidos políticos tenham sido
hostilizados. Não é de hoje que se sabe o porquê da ferocidade das militâncias,
inclusive de esquerda. Após a eleição, é esta militância que ocupa os cargos do
funcionalismo público, pelo menos nas funções para as quais não é exigido
concurso – embora saibamos que existem concursos viciados, voltados à aprovação
de alguns. O aparelhamento da máquina pública e a corrupção é que são os
verdadeiros vandalismos.
Neste sentido, concordo com o desmaquiado Boechat que manifestou
serem legítimos atos de vandalismo, como arranhar carros de políticos, lhes
criar constrangimentos, como vaias em lugares públicos. Aliás, Boechat
desmaquiado parece com Dráuzio Varela ou o Mr. Burns, dos Simpsos.
Este não é um movimento que se faça com lideranças, mas com
lideranças de areia, que se movem ao sabor dos ventos, como as dunas do Abaeté.
Um consegue gritar mais alto e alguns repetem o que ele/a grita. Depois, mais
gente repete e a multidão “fala” em uníssono, como se fosse um monstro de mil
cabeças – meu nome é Legião. Mas, logo em seguida, o dono/a da voz falha e isso
dá lugar a outro/a que terá uma “liderança” tão transitória quanto o primeiro.
Este é um movimento que recusa lideranças, que as
ridiculariza, as destrona. Ao contrário do que disse a Revista Veja, não é o “topo
da pirâmide”, a juventude de classe média, que desce às ruas. Ao contrário do
que imagina o Globo Repórter não é um adolescente branco cujos pais protestaram
contra Collor que é o “líder” do movimento. Ninguém é líder. Todos são líderes.
O que os manifestantes desafiam é uma autoridade em última
instância, patriarcal. Aqui não há Édipo possível. “Se o ser humano está morto,
quem está nas ruas??”.
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