Danilo Gentilli e a moral do psicopata
A psicopatia não é uma
doença, mas um diagnóstico psiquiátrico-forense, caracterizado por um sujeito
que não consegue empatizar – se colocar no lugar do outro, o que enseja uma
extrema insensibilidade em relação às pessoas, pois estas se tornam meros
instrumentos para o psicopata. Estes “seres bípedes”, como os classifica Ana
Beatriz Barbosa Silva, autora de Mentes
Perigosas – o Psicopata Mora ao Lado têm um peculiar jeito de olhar a vida.
Vivem como se os outros à sua volta fossem peças num jogo de xadrez, algo
descartável, meios para um determinado fim. Não sabem a diferença entre os
“seres humanos” e as “coisas”.
A Polícia Federal
Americana (FBI) investiga anualmente ao menos 50 possíveis seriais killers. Porém, há algo contra o que nem mesmo as polícias
podem nos defender. Trata-se da “cultura da psicopatia”, para recorrer, mais
uma vez, a Ana Beatriz. Esta insensibilidade ao outro se manifesta em vários
aspectos, desde as novelas, que apagam os negros das suas narrativas (ainda que
o País seja formado por 51% de afrodescendentes), até a sua face mais cruel, o
humor sem graça destinado a ofender alvos determinados: negros, judeus,
homossexuais e mulheres.
Em entrevista ao
publicitário e dublê de apresentador Roberto Justus, Danilo Gentilli diz: “Toda
comédia tem um alvo. Eu sou um atirador e estou em busca de um alvo”. A frase,
longe de ser engraçada, lembra o discurso coerente e racional de alguns de um
dos tipos mais assustadores de assassinos em série, os LDSK, na sigla em
inglês, algo como: “Serial Killer de Longa Distância”, aqueles que matam pessoas
a centenas de metros de distância, as vendo a partir de uma lente de mira – não
há aproximação física ou qualquer chance de contato com a vítima. Há apenas o
prazer de matar a partir de uma distância segura para o atirador. Esta distância
é sintomática, pois invalida qualquer possibilidade de identificação. A vítima
é a alteridade extrema.
Não pretendo dizer que
o Gentilli seja um psicopata, mas que o humor brasileiro, em seu momento atual,
sucumbe à mesquinharia, à estupidez e assume comportamentos com traços
psicopáticos. É um humor que tem a dificuldade de empatizar, de pedir desculpas
e acha engraçado estimular, ainda que indiretamente, a violência contra grupos sociais
discriminados. Na entrevista, Gentilli arrota alguma cultura. Afirma ter lido
Freud e Bergson. Mas há outras opções que ele poderia tomar, talvez Stuart Hall
e Judith Butler.
Estes pesquisadores
concordam que uma série de textos da cultura elege enquanto aquele capaz de
exercer o direito à humanidade um tipo de sujeito que teve a sua posição, o seu
lugar, blindado ao longo da história ocidental. Eis as suas características:
homem, branco, heterossexual, cristão e de classe média. Precisamente com os
seres humanos dotados destas características parece não existir piada possível.
A piada funciona apenas com aqueles que são “outros” – com os quais não é
possível nenhuma solidariedade ou identificação – negros, mulheres,
homossexuais, judeus, asiáticos – apenas para ficar em alguns exemplos.
Gentilli fez uma piada
sobre o cancelamento de uma estação do metrô em São Paulo num bairro que teria alta
concentração de judeus de várias nacionalidades, episódio pelo qual se retratou.
Porém, antes disso, ele fez outra piada: “king Kong, um macaco que, depois que
vai para a cidade e fica famoso, pega uma loura. Quem ele acha que é? Jogador
de futebol?”. Por esta nunca pediu desculpas.
Mas fica a frase do psicólogo
Jacob Goldberg, ouvido durante o programa: “A minha liberdade termina onde
começa a dignidade do outro”. Nada como uma ação por danos morais para lembrar isso
ao humor sem graça. Aliás, nada como o humor de verdade, feito por um
inglesinho pequeno, feio e traquina, Chaplin, que, em seus filmes, nunca
agrediu pretos, judeus e mulheres (não nos os que eu vi) e no filme O Grande Ditador (1940) discursou por
quase cinco minutos contra o racismo e a intolerância. E quanto ao melhor
comediante de stand-up de todos os tempos, George Carlin – assisto alguns dos
seus shows na Internet – ainda não vi sequer uma piada racista ou sexista. Enfim,
apenas me ressinto por ter citado Chaplin e Carlin no mesmo texto no qual cito Danilo Gentilli. Vai
vendo...

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